Aula de marketing às avessas


Clube mineiro lança seu novo uniforme em noite conturbada e com repercussão negativa

No último dia 15 de fevereiro, o Clube Atlético Mineiro protagonizou uma aula do que não se deve fazer na comunicação. O Clube lançou seu novo uniforme em desfile em tom machista com frase na camisa insinuando que a “esposa deve lavar a camisa”.

No momento atual em que os olhos do mundo estão voltados para a emancipação da mulher, com manifestações e discussões sobre a questão em alta, como o documentário “The Hunting Ground”, que concorreu ao Oscar 2016, sobre os inúmeros casos de estupro nos campi universitários americanos, e o belíssimo filme “As Sufragistas”, no qual a protagonista, Carey Mulligan, foi indicada ao prêmio de melhor atriz no British Independent Film Awards, o time mineiro pareceu não se importar em correr na direção contrária.

Além da polêmica da camisa que teve repercussão negativa nas redes sociais, o desfile de lançamento do uniforme também foi bastante criticado pelo público em razão das modelos aparecerem vestidas somente com uma peça do uniforme.


A frase estampada na camisa do Clube “Give it to your wife”, que sugere que a camisa deve ser lavada pela esposa, sofreu um verdadeiro massacre nas redes sociais. Vejam alguns comentários no Facebook:

“Simplesmente i-na-cre-di-tá-vel... não consegui entender o que passa na cabeça de quem aprova isso”.

“É o galo fazendo isso, a Kaiser com o slogan ‘Escute suas bolas’. Tá fácil ser publicitário nesse país, qualquer “m***” tem diretor aceitando”.

E por aí foi o tom negativo dos milhares de posts.

O que mais impressionou foi o fato da Diretoria do Clube aceitar uma camisa com esses dizeres, porque deveria ser trabalho deles conferir cada detalhe antes de lançar um produto, principalmente para o público de massa. Além do mais, o Clube não só não se retratou, como o seu ex-presidente, Alexandre Kalil, ainda fez piadinhas no seu Twitter sobre o caso.

Se a ideia da frase na camisa era fazer piada, já que o rival do time tem torcedores taxados como “Marias” e os torcedores do Atlético são assumidos “machões”, a novidade não foi recebida com tom de brincadeira por grande parte do público e a nova fornecedora de uniformes do Clube, a canadense DRYWORLD, acabou entrando o pé “esquerdo” no Brasil.

No entanto, diferente da Diretoria Atleticana, que não se deu o trabalho de se retratar, a DRYWORLD divulgou em redes sociais um pedido de desculpas pela mensagem e garantiu que o episódio não será repetido.

Veja o pedido de desculpas na íntegra:

“A DRYWORLD Industries pede sinceras desculpas pela etiqueta das camisas promocionais distribuídas no evento de lançamento da coleção 2016 do Atlético. Tal etiqueta foi criada apenas como uma peça publicitária para uma campanha não aprovada pela empresa. Assumimos toda responsabilidade no erro de produção das camisas promocionais distribuídas com esta etiqueta e garantimos que todas as precauções foram tomadas para evitar que este tipo erro aconteça novamente. Claudio Escobar, President, DRYWORLD Industries”.

Os dois episódios protagonizados pela falta de preparo com a comunicação de um dos maiores clubes de futebol do Brasil nos dá bons argumentos para estudo do que não se deve aplicar nos dias de hoje. Vincular discriminações tão combatidas e que sabemos causar repercussão negativa, principalmente no momento em que uma grande verba foi destinada com intuito de elevar a marca e lançar novos produtos, é virar a comunicação do avesso.

Toda empresa deve se planejar para estar no mundo virtual. É preciso ter uma comunicação adequada, com profissionais preparados e que saibam responder rapidamente ao universo digital. Quanto maior o peso da camisa, ou melhor, da marca, mais importante ter uma comunicação alinhada e preparada para situações de crises, principalmente em redes sociais, no qual tudo pode se espalhar viroticamente.

Novos produtos não emplacam somente por força da marca e designer, é preciso cuidar de cada detalhe, desde a confecção e distribuição do produto, até a estratégia de lançamento da campanha. Não basta produzir um evento, é importante estruturar a forma de como ele será comunicado e deixar muito bem preparado o discurso e a defesa virtual.


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