Por que temos o dever de separar Olimpíadas de política?
Sim, eu comprei ingresso e vou ao Rio de
Janeiro ver as Olimpíadas, como sempre acompanhei os Jogos em outras edições,
em outros países
Começo o artigo já
respondendo a pergunta que fiz, devemos separar Olimpíadas de política porque os
Jogos Olímpicos foram feitos para os atletas e não para o povo ou da cidade que
o sedia.
A alguns dias do início das Olimpíadas
ainda escuto as pessoas falando mal dos atletas, fazendo críticas recheadas de pré-conceitos
e até mesmo citando boicotes: “não vou assistir” ou “vou estar longe do Brasil
no período”, “me recuso a aceitar sobre os gastos superfaturados, dinheiro que
poderia ter sido revertido em saúde e educação” e tanta outras críticas... blá
blá blá!
Para mim isso tem um nome: R
E C A L Q U E!
Eu vou pelo amor ao esporte,
por me emocionar com cada uma das situações de superação máxima, seja nas
vitórias ou nas derrotas dos atletas, pois ninguém sabe o que passaram para
chegar até ali e, como ex-atleta, posso afirmar que ninguém mesmo tem ideia do
que é ser um atleta de ponta. Significa abdicar de família, amigos, vida social
e de qualquer outro contexto que não seja treino, treino e treino. São dias e
anos de dor e solidão, recomeço e superação.
No Brasil, ainda, nem se fala!
A maioria dos atletas trabalha em outras profissões e usa as horas de descanso
para treinar e até mesmo para garantir a refeição do dia. Só de terem se
classificado para uma competição mundial já deveria ser um grande mérito, mas
os atletas sempre querem mais. E os cidadãos comuns, leigos, sempre estão prontos
para criticá-los pelos seus desempenhos.
O que mais incomoda é ver os
comentários do tipo “os atletas brasileiros são muito inferiores, nunca
conseguirão medalha” ou “eu já sabia que esse aí não iria ganhar nada, um fraco
e oportunista que não se preparou direito, só quis receber a ajuda do
patrocinador”.
Oi? Primeiro, a maioria das
empresas só investem em atletas de ponta e os já consagrados e para chegar
nesse nível tem que batalhar muito, ou seja, o atleta passou dificuldade a vida
toda, mas se classificou para as Olimpíadas, então tem o meu patrocínio.
O empresário só está disposto
a patrocinar o atleta com base sólida, de treinamento, incentivo etc., isso faz
o esporte no país caminhar num ciclo vicioso e contrário: primeiro chegue na
ponta e depois eu te patrocino, sendo que para chegar a ponta é preciso de
estrutura e recursos.
Todos os dias escuto histórias de superação de atletas do Brasil, que tiveram que fazer “vaquinhas”, quer dizer arrecadar dinheiro com parentes, amigos etc. para conseguirem participar de competições locais ou mundiais, que são eliminatórias para os Jogos. A maioria deles, mesmo com índices qualificatórios, esbarra nessa questão “grana” e não conseguem seguir em frente.
As atletas do futebol
feminino são grandes exemplos do que estou falando. Entre balconistas,
vigilantes, porteiras, açougueiras etc., não desmerecendo nenhuma dessas profissões,
treinam quando podem e enfrentam adversários, superatletas com todas as
condições imagináveis de treinamento. Apesar de que hoje, a maioria das meninas
da seleção (pelo menos as da seleção brasileira), já treina fora do país.
Mesmo porque não existe
competição séria no Brasil nesta modalidade e a maioria delas só disputa
competições oficiais internacionais, sem nenhum campeonato de base de
preparação. Ou seja, por melhor que sejam, jamais chegarão ao nível de uma
atleta com preparação para atletas.
Sobre política e Olimpíadas
Claro que as Olimpíadas são
um espaço político de grande visibilidade e não há como entendê-las sem
refletir sobre o contexto sócio-político que envolve a realização dos Jogos em
um determinado país.
Não é novidade para ninguém
quando tentam menosprezar o anfitrião dos Jogos Olímpicos e isso acontece com
frequência até em países mais desenvolvidos. Quem não se lembra das últimas
duas Olimpíadas? Em Londres a crítica foi sobre os orçamentos e cronogramas e
em Pequim o foco negativo estava na qualidade do ar.
Já no Rio o falatório é ainda
maior, tem muita coisa para se apegar, os superfaturamentos, a falta de
transporte, obras inacabadas, dengue e o assunto que tem mais de um ano que foi
descoberto e não se fala de outra coisa: a poluição da água e o risco de
contaminação para os atletas.
Megan Kalmoe, atleta olímpica do remo dos Estados Unidos, escreveu um belíssimo texto que expressa muito sobre o que estou tentando dizer:
Confira no link: Stop trying to ruin the Olympics for us
Sobre a violência que se instalou no Rio
de Janeiro
Bem, superadas as tentativas
de culpar os atletas pelas mazelas políticas do país, chega o momento do pânico
e do medo de ir ao Rio de Janeiro. Balas perdidas, facções criminosas e
delinquentes andando livremente pelas ruas mais famosas e conhecidas da cidade.
Copacabana, por exemplo, se tornou a céu aberto o point de marginais de todas
as idades que diariamente descem do morro para aterrorizar a vida de turistas e
moradores da região.
Tenho uma amiga mineira que
mora há mais de 20 anos no Rio de Janeiro, em Copacabana, e que é certamente uma
das pessoas mais apaixonadas pelo Rio que já conheci e que, pela primeira vez,
faz sérios planos de deixar a cidade ainda esse ano.
Essa violência está mais
falada do que nunca pelo foco no Rio Olímpico, mas nunca foi novidade para
ninguém. Há anos frequento o Rio de Janeiro e jamais consegui circular
livremente por ele sem pânico ou sem a tensão habitual de “não fique aí parado
dando mole, tire todos os seus objetos de valor, esconda seu dinheiro e cartões
em lugar seguro e, se possível, que não dê para ver”, “nunca ande com bolsas”,
enfim...
O Rio já perdeu a sua condição digna de cidade turística há anos para o tráfico.
No entanto, as
pessoas aprenderam a lidar com essa situação e de certa forma o que se via no
Rio era um respeito por parte dos traficantes e bandidos (se é que podemos
chamar isso de respeito), mas em períodos de grandes eventos, ninguém toca em
turistas etc., mesmo porque é o período em que mais faturam com a comercialização
de drogas e isso é lei entre as facções.
Eu realmente acredito que não
teremos problemas de ordem no Rio por parte da bandidagem local. Já deve estar
tudo planejado para fluir normalmente, como acontece na maioria dos eventos e
para que isso aconteça é preciso de ordem e paz.
O que não nos deixa
totalmente seguros, é preciso ter a atenção de sempre. Tudo pode acontecer, mas
acredito que se algo aterrorizar os Jogos Olímpicos do Rio não será por conta
da violência e desordem atual. Isso no Rio é velho, não tem nada de atual.
Portanto, não podemos ter
pânico das Olimpíadas. O Brasil, e principalmente o Rio de Janeiro, sabe fazer
evento. Somos o país do carnaval, não somos?
Sobre possíveis ataques terroristas nos Jogos
Em toda a história dos Jogos Olímpicos
foram comprovados somente dois atentados terroristas.
Um em 1972, em Munique, quando 11 membros da equipe de Israel
foram feitos reféns e mortos por um grupo terrorista palestino, história que
inclusive virou filme. Na ocasião cinco terroristas também morreram e outros
três foram presos.
O outro ataque foi mais recente, em Atlanta, em 1996, quando no meio das Olimpíadas,
uma bomba explodiu matando duas pessoas e ferindo mais de 100.
Não dá para prever sobre a
loucura e a cegueira veemente que tomou conta desses fanáticos religiosos, embora
eu não acredite que estejam mirando o Brasil, mesmo diante desse histórico.
Normalmente os ataques são
pontuais e específicos para alguma delegação e, sinceramente (pode ser achismo
meu, mas tenho como característica sempre pensar o melhor), não, não vai
acontecer nenhum ataque no Rio de Janeiro. Falo isso até como uma corrente do
bem, diferente de uma maioria que tem certeza de que irá acontecer.
Sim, eu vou e estarei
torcendo muito para que tudo seja lindo e que os atletas possam fazer o melhor,
conforme se prepararam.
E quem sabe a gente não se vê
por lá? Boa sorte ao Brasil e a todas as outras delegações e sejam muito bem-vindos
ao RIO 2016!

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